Página Principal | Menu em Português | Site Map | Portfolio | Serviços de Tradução & Arte | Contatos | FAQs
Editorial
Natureza e Arte

Como é sabido pelos nossos leitores, temos pautado, sempre que possível, acontecimentos que revelam o lado bom da relação homem-natureza. Não é uma tarefa fácil porque comumente deparamo-nos com apenas com manobras daqueles que fazem o bem apenas da boca para fora, ou na sua denominação mais apropriada, o marketing verde.
No entanto, temos encontrado bons exemplos. Seja na ciência, na indústria, no governo ou na imprensa, lá estão os bons exemplos de que a natureza encontra paz nas mãos do homem.
Desde o lançamento de Com Ciência Ambiental, em julho de 2006, temos privilegiado ações de alguns segmentos da sociedade, como da comunidade científica nacional, das ONGs nacionais e estrangeiras e das comunidades tradicionais. Em branco ficou, porém, o trabalho dos artistas.
Ouvimos dos mais vividos que nunca é tarde. E foi assim então que decidimos que não poderíamos mais adiar uma pauta sobre aquele que é um dos maiores representantes do encontro da arte com a natureza, o ilustrador naturalista.
Resolvemos que o trabalho do ilustrador naturalista seria a capa desta edição, então entrevistamos professores que ministram aula em cursos dirigidos à formação de ilustradores, especialistas na arte dos naturalistas Alexander Von Humboldt, Jean Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas e convidamos o naturalista indo-britânico Robert Rajabally para produzir um artigo sobre o assunto.
Até aí trata-se de um procedimento normal para a produção de uma edição, mas tudo mudou quando recebemos o artigo de 21 mil caracteres escrito por Rajabally. Com ele, vimos que sabíamos ainda pouco, ou melhor, sabíamos mais sobre Rugendas, Humboldt e menos sobre o dia-a-dia dos homens que emprestam sensibilidade ao registro da natureza.
Assim, tomamos uma decisão pouco comum, o artigo de Rajabally tornou-se nossa matéria de capa sem, claro, a pretensão de tornar-se um conteúdo jornalístico sustentado no relato e interpretação de um fato. Trata-se de um registro que jamais nós jornalistas alcançaríamos. Ele vem de dentro do artista, de um homem que há mais de 30 anos conhece a arte da natureza, seus encantos, suas cores e suas fragilidades.
Deixamos que esta edição fosse o espaço para Rajabally convidar os leitores para a abertura de um espaço que Com Ciência Ambiental pretende dedicar ao trabalho dos ilustradores naturalistas. Para isso, a continuação da cobertura sobre a formação do ilustrador, o debate entre artista, cientista e o mercado de trabalho será retomada na edição de junho.
Se deixarmos a arte em segundo plano, recuperamos antes que antes que fosse tarde o espaço que ela merece em nossa revista. As boas-vindas a essa temática não poderia ser melhor.
Convidamos nosso leitor para conhecer a arte e a inquietação do ilustrador Robert Rajabally.
Boa leitura!
Cilene Victor
Diretora de Redação – Revista Com Ciência Ambiental / Julho 2007
.................................................................................................................................................................................................
Matéria:
Arte, ciência e natureza – Reflexões de um Naturalista
(Título original: A Ilustração Naturalista*)

Por Robert Rajabally

Evolução. Eis uma palavra muitas vezes esquecida e mais vezes ainda mal interpretada, ou relegada a um segundo plano em tudo o que fazemos.
É uma palavra que carrega um significado que deveria estar presente em todas as profissões que modelam o presente e semeiam o futuro, especialmente em todas as ciências e em todas as artes, pois estas afetam diretamente nossas vidas e nossa maneira de pensar. Ela pertence ao início desta matéria porque entre tantas ocupações do ser humano, o de naturalista, que tentarei descrever um pouco aqui, é uma das que mais deveria estar atenta à evolução no seu verdadeiro sentido, tomando a vida como um todo, despida de preocupações apenas materiais de um lado ou de confusas crenças místicas do outro, para buscar respostas mais profundas sobre aquilo que chamamos vida e que nossos sentidos testemunham a cada dia se nos dermos ao trabalho de reparar sem nossos preconceitos científicos, religiosos ou culturais. Uma visão de síntese enfim, exigida pelos tempos de maior clareza mental em que vivemos, um potencial de clareza que, paradoxalmente, também sempre está sendo colocada em perigo pela exposição às inversões de valores que experimentamos em grande escala todos os dias; uma síntese que ainda aguarda uma maior compreensão de nossa parte do mundo em que vivemos já que estamos interagindo e intervindo nele a cada instante também seja por atos, seja pela omissão.
É fácil ver que sem essa compreensão de profundidade e de síntese, dificilmente nossas decisões sobre o que quer que seja poderiam ser sábias ou certas, principalmente em seus efeitos a longo prazo, uma reflexão que é muito atual em tempos de tantos debates sobre conservação do nosso meio ambiente em face ao poder de intervenção nos ecossistemas que temos hoje. Tais decisões e omissões na verdade, podem ser e freqüentemente são realmente desastrosas como podemos ver diariamente nos meios de comunicação, onde tantos equívocos criminosos são cometidos pela ignorância das Leis Naturais e na arrogância de acharmos que tudo nos é permitido fazer para domar a Natureza e arrancar dela seus segredos à força - muitas vezes apenas por lucro ou vaidade - ao invés de caminharmos com ela em humilde aprendizado.
Aqui estamos, numa revista preocupada com questões ambientais, olhando por um instante para a arte do naturalista, seja ele profissional ou amador e o que isso pode ter de útil num cenário como o descrito acima. É algo pouco conhecido em nosso país e espero poder mostrar como sendo algo fascinante e significativo. Vamos ver um pouco como esta fascinante história natural, literalmente, se desenhou: tradicionalmente, o papel do naturalista do passado recente era de procurar descrever esse mundo, o fenômeno Vida e seus mecanismos intrincados a nós outros, preparados que eram em diversos campos, inclusive artísticos para completar suas observações com as mais ricas e precisas ilustrações mesmo antes da invenção da fotografia. Esse naturalista é o naturalista do passado, um amante da natureza que deveria reunir diversas habilidades, pois também servia como desbravador de novas terras, como repórter de um novo mundo e um detalhista que saberia categorizar com precisão seus achados. Não raro, seu trabalho seria completado por outro tipo de naturalista, o do laboratório e das academias de ciência que tinham à mão vastos compêndios e instalações apropriadas para dissecar, medir, pesar e finalmente classificar as espécies animais e vegetais encontradas não sem o inestimável auxílio das observações in loco e das ilustrações de seus colegas.
Esses eram tempos em que a humanidade emergia finalmente do obscurantismo e entrava na chamada era da razão e onde começou a imperar o sistema usado até hoje de análise – uma forma na verdade oposta à de síntese que mencionamos antes – mas que tinha e tem grande importância no nosso esforço de compreender o mundo em que vivemos. Havia então uma grande necessidade de classificar esse vasto manancial natural em classes, ordens e famílias para podermos de alguma forma controlar o volume de informações e torná-la assimilável por outros que as estudariam mais tarde. Assim, com alguma liberdade, pode-se dizer que os naturalistas do século 19 eram divididos em naturalistas-aventureiros (de campo) e os naturalistas-sedentários (de laboratório) que nem sempre se entendiam por defenderem princípios opostos. O que importa, porém para nós neste artigo sobre Ilustração Naturalista além dos seus métodos, são os resultados, principalmente nas maravilhosas artes criadas por estas pessoas que amavam o mundo natural a ponto de colocarem suas vidas em perigo em aventuras perigosas.
Quando referenciamos esse passado relativamente recente, imediatamente vêm à mente os nomes dos mais famosos naturalistas que o mundo conheceu como o alemão Alexander Von Humboldt (1769-1859) que esteve na Amazônia em 1800 em suas expedições pela América do Sul de 1799 a 1804 ou ainda do grande naturalista Franco-Americano John James Audubon (1785-1851) que, entre tantas contribuições, descreveu, catalogou e pintou os pássaros da América do Norte e claro, o eterno naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) que nos trouxe a primeira noção de Evolução com a publicação da Origem das Espécies em 1859. Impossível não esquecer contribuições importantes ao tentar referenciar todos os nomes conhecidos numa matéria de revista e ainda fazer justiça aos inúmeros anônimos ou dos que não seriam classificados estritamente como naturalistas na acepção acadêmica da palavra, mas que o eram de corpo e alma na profundidade e no brilhantismo de suas contribuições como iremos reconhecer um dia quando nossa visão do mundo for menos materialista e procurarmos entender de coração e mente limpos e desimpedidos, o que jaz por detrás dela indo muito além do que sabemos hoje. Estes últimos serão tratados mais adiante por constituírem uma classe à parte por irem além dos ditames convencionais da área o que, de certa forma, é o foco desta matéria.
Por aqui, na Terra Brasilis também passaram outros grandes nomes como o parisiense Jean Baptiste Debret (1768-1848) um artista muito abrangente que chegou a desenhar a primeira bandeira do Brasil e o pintor alemão Johann-Moritz Rugendas (1802-1858) que ficou conhecido como o pintor das cenas brasileiras pelo seu trabalho iniciado em 1821 quando aqui esteve em expedição como desenhista. Tudo isto já estará sendo dito nas outras matérias a respeito nesta edição da Com Ciência Ambiental, melhor do que eu poderia fazer. Assim sendo vou tratar do meu assunto principal: O profissional naturalista de ontem e a Ilustração Naturalista de amanhã.
O que define ser um naturalista? Seria aquele que retrata somente o mundo natural e aqui se entenda os animais, os minerais e as plantas ou podemos abranger os pintores que retrataram a vida dos povos e as etnias nas suas interações com os ‘descobridores de um novo mundo’? Inevitavelmente, ao se retratar os povos e costumes de uma época, acaba-se registrando na forma de desenhos e pinturas grande parte da geografia, da topografia e da flora e da fauna locais, porém isso não é necessariamente um trabalho de naturalista que se preocupa mais com a coleta de espécimes e dali sim produzir desenhos precisos, esquemáticos ou artísticos de suas observações além de também muitas vezes fazer desenhos da topografia de lugares ainda não mapeados como referências cartográficas. Tudo isso é realmente um mundo fascinante de incontáveis obras de arte de valor inestimável tanto pelo seu registro histórico como pela qualidade das pinturas, que são uma categoria de arte distinta, nem sempre reconhecida: do Desenho Naturalista, da Ilustração e da Pintura Naturalista. Para tratar delas de forma mais completa seriam necessárias várias revistas inteiras e talvez nem assim conseguiríamos abordar o tema sem esquecer algo importante, porém a ênfase aqui é de trazer à luz essa forma de arte pouco conhecida e pouco valorizada principalmente no Brasil. Fica a sugestão para os educadores que estejam lendo estas linhas que procurem educar nossas crianças e jovens para que conheçam esta vertente artística não só pelo seu valor histórico, mas pelo dinamismo e papel que pode ter nos dias de hoje. Quem sabe não apareceriam mais artistas empenhados em ver e ir além das artes e conhecimentos convencionais, criando algo único e de real inspiração para as gerações atuais e futuras? Futuro? Isto me faz pensar em rumos. Então vamos ver um pouco disso.
Rumos
Como disse no início, desejo ir um pouco além do convencional neste esboço sobre o tema, pois uma referência completa dos nomes citados poderia ser mais apropriadamente encontrada em ótimos livros que existem mundo afora e nas inúmeras matérias dedicadas ao tema, sendo inútil repisar apenas o que já é bem conhecido, valendo mais a proposição de novas idéias e as possibilidades inerentes à profissão hoje, revelando um potencial que pode e deve ser levado adiante para não ser tão desconhecido especialmente em nosso país que hoje discute a importância da cidadania plena e carece de mais obras originais sobre essa fascinante área da arte.
Então, da imagem do naturalista tradicional que pintei acima, começamos a nos aproximar dos dias atuais onde podemos encontrar alguns belíssimos livros ilustrados que mostram o mundo do naturalista profissional ou amador. Como exemplo, posso citar o livro O Naturalista Amador do naturalista e conservacionista indo-britânico Gerald Durrell (1925-1995), um livro editado no Brasil e em Português pela Martins Fontes ainda em 1984, numa ótima iniciativa. O valor desse livro está em justamente apresentar o universo do naturalista amador e profissional ao público de todas as idades de forma carismática como merece o tema, dividido em regiões e fartamente ilustrado com lindos desenhos e ilustrações além da primorosa fotografia que é parte indispensável do naturalismo moderno que busca registrar de todas as formas o objeto do seu amor e interesse. São livros como esse que nunca deveriam faltar nas salas de aula de nossas crianças. Pare e pense nisso um instante, pois não sei como enfatizar mais esta questão: poderíamos ter livros nacionais, ricamente concebidos para nossas crianças, livros distantes das canastrices ginasiais de livrinhos e folhetos ambientais comuns que pouco fazem para estimular o interesse legítimo do ser pensante e respeitar a inteligência do leitor, gerando somente mais desinteresse e apatia pela vida ou promovendo a repetição das mesmas coisas de sempre. É preciso um esforço coletivo para retomar a educação, despertar e orientar o interesse natural de crianças e jovens pelo universo que nos cerca de forma dinâmica e aprofundada, transcendendo modismos ecológicos e o conhecimento superficial bem antes de escolherem suas profissões, para que mais pessoas cheguem à vida adulta ainda despertas e vivas no que diz respeito à sua ligação fundamental com a vida e em condições de demonstrar essa visão de várias maneiras. Ainda é tempo e pode ser feito aqui e ali. Mas voltemos ao nosso assunto principal.
Comparando esse passado com o panorama atual, pode-se ver que a formação cultural-acadêmica do naturalista de antigamente era mais abrangente, uma formação onde o cientista-naturalista tinha uma cultura mais vasta, multidisciplinar, interessado que era nas ciências naturais sem distinção de áreas, pois se interessava por todas as partes que compõe a busca do entendimento como um Todo. Esse é o tipo de formação que falta hoje: uma formação multidisciplinar que não se prenda aos preconceitos científicos modernos e ouse ir além, onde estão as verdadeiras respostas, além da noção estacionária da Evolução das Espécies de Darwin. Parece uma contradição e é: evolução em si não pode ser estacionária, mas a noção dela acaba sendo se a compreendemos e a aplicamos de forma estática, sem ver que há mais o que ver além da noção de que as espécies lutam pela sobrevivência do mais forte para propagar sua semente como o método impessoal e frio ‘escolhido’ pela natureza: a chamada seleção natural. É preciso estar disposto para ir muito além desbravando o resto e vendo onde nos encaixamos nisto. Ou seja, trata-se de ir além do debate estéril do Creacionismo vs. Darwinismo, se me permitem por desta forma, trata-se de educar corações e mentes para unir a pesquisa científica ética e séria com as noções de evolução e despertamento da consciência para uma investigação proveitosa e fascinante. A Ilustração Naturalista pode e deve, na minha opinião, ajudar nesse processo, materializando imagens que inspirem esta busca, que dêem forma ao imponderável e empolguem o coração com imagens que procurem mostrar mais do que um livro de botânica ou uma mostra comum de belas fotos de natureza poderiam mostrar.
Em contrapartida, o naturalista moderno possui uma formação mais especializada, quase sempre significando uma formação como biólogos ou ambientalistas de diversos tipos para ter a fundamentação científica necessária tanto para a análise como para o diagnóstico de providências a serem tomadas para cada estudo ou solução de problemas. Porém essa inegável vantagem do arsenal moderno de sua formação pode ser seu maior problema por muitas vezes ficar restrita ao seu campo de observação e ao que é aceito como ‘útil’ de ser pesquisado, salvo seus próprios estudos pessoais que complementem sua formação como pessoa, mas que infelizmente ainda não são reconhecidos do ponto de vista profissional, pois a sociedade e a comunidade científica atuais tendem a ver mais as credenciais que o profissional possuir de sua formação acadêmica normal, ou seja, se ele se encaixa no modelo atual, do que dependerá seu sucesso na carreira e a obtenção de verbas para suas pesquisas. De modo geral, há pouco interesse em se ir além, mas isto já foi feito pelo mundo afora e noutros tempos com enorme sucesso e deveria servir de exemplo a nós outros. Isto não é uma crítica generalizada, pois se deixa espaço para todos os acertos de profissionais corajosos aqui e ali, no Brasil e no mundo que estão vivenciando algo mais real e ético; é antes de tudo, uma observação como cidadão, dos fatos que vemos ao nosso redor que chamam a nossa atenção, porque há um problema em grande escala.
A excessiva especialização, fruto da chamada era da razão e da análise apesar de sua também inegável importância, possui uma outra grande limitação inerente: torna cada vez mais raro o surgimento de pessoas capazes de ver o Todo, além das partes de sua especialização e disso extrair conclusões, mais abrangentes e úteis, porque mais próximas da realidade e dos verdadeiros mecanismos da natureza que não está dividida em compartimentos estanques, como tantos gostariam, mas que ao contrário, exige cada vez mais que saibamos ver a ressonância entre as partes e como tudo é um só organismo interdependente e que influi uns sobre os outros de forma dinâmica e que tais segredos não estão somente ‘lá fora’ ou debaixo das lentes de um poderoso microscópio eletrônico, mas também dentro de cada um de nós. Inúmeros estudos já mostram essa interdependência, tanto que já é até ‘politicamente correto’ afirmar que o que fazemos ou o que deixamos de fazer com a natureza nos afetará o futuro de nossos filhos, assim, não erraríamos por muito se afirmássemos que isso não é misticismo ou especulação sem base e sim a ciência do futuro que deveríamos estar construindo hoje de forma mais ativa. Isto é Evolução. Precisamos de pessoas que possam opinar multidisciplinarmente com autoridade intelectual e moral sobre as questões éticas prementes e não apenas sobre sua área, gerando polêmicas infindas. Sem uma formação mais global fica difícil o diálogo e a troca de opiniões que dependem mais de sabedoria universal sobre as Leis da Vida do que da especialização que não leva em conta esta ressonância e está presa a regras dogmáticas.
Mesmo com as diferenças que vimos acima entre o naturalista de antes e o de hoje ainda assim há um fio condutor que une as formas mais tradicionais e as mais modernas da profissão de naturalista e este é justamente seu foco que ainda está estacionado na análise dos espécimes, quantificando e qualificando suas partes supondo extrair desse método os resultados tanto para a chamada conservação dos ecossistemas como para o desenvolvimento de produtos lucrativos para a indústria. Da noção original de evolução Darwiniana para os tempos de hoje é evidente ter prevalecido uma noção de evolução puramente material das espécies, apenas por motivos de propagação da própria espécie e de sobrevivência, daí também o foco dos artistas ter recaído, na maior parte, em retratar de forma a valorizar a anatomia e a forma biológica física como única coisa a ser vista no mundo natural. Esse modelo, sem dúvida importante e necessário na época em que foi apresentado a um mundo que carecia saber estas coisas, pode ser insuficiente hoje e certamente será para o futuro, pois o homem moderno não pode mais basear sua trajetória de vida apenas com uma noção de acaso e necessidade de sobrevivência para explicar o fenômeno vida e nortear seu comportamento. A própria vida parece nos chamar a atenção para mais. Mas, estamos ouvindo?
Outras pessoas ouviram. Há outras tendências que também foram desenvolvidas paralelamente desde o século 19, mas que estranhamente não tiveram a chance de serem apreciadas por muitos - que deveriam ter maior poder de escolha do que lhes convém estudar estando num país livre - principalmente no Brasil, pela oficialização do que deve ser estudado ou não e pela falta de obras devidamente traduzidas e publicadas para o público brasileiro além da crescente necessidade de definição de nossas profissões dentro do que já existe e é aceito, agora sim, para garantir nossa sobrevivência. São Cientistas, Naturalistas, Bioquímicos, Horticulturistas, Físicos e Biólogos de formação abrangente e de todas as latitudes do planeta que produziram obras da maior magnitude para depois serem ignoradas como anticientíficas, um verdadeiro absurdo por sinal, principalmente porque muitas foram feitas com rigor científico e resultaram em muitos tomos de milhares de páginas com experimentos que podiam ser reproduzidos por outros pesquisadores com resultados idênticos (um dos preceitos de aceitação do chamado ‘método científico’). É o trabalho, por exemplo, do cientista Indiano Jagadis Chandra Bose que antes de 1900 já havia amplamente demonstrado diante da Real Academia de Ciências da Inglaterra as reações dos elementos considerados não-viventes com seu Crescógrafo – demonstrando que não há a suposta fronteira entre o vivente e o não-vivente, que tudo possui vida – e subseqüentes equipamentos tão precisos e sensíveis que até hoje não temos nada igual, além de mais descobertas espetaculares, todas demonstradas com o rigor científico necessário. Um museu em sua homenagem pode ser visitado na Índia. Ou ainda o trabalho visionário e pioneiro do ex-escravo norte-americano tornado bioquímico George Washington Carver que demonstrou também nos idos de 1800 sua comunicação com as plantas e criou disso centenas de produtos que hoje ainda são fundamentais na economia mundial como os inúmeros derivados do amendoim. E que dizer do genial inventor, observador naturalista e guarda florestal austríaco Viktor Schauberger que revelou as espetaculares propriedades da água, como ela se move, os efeitos da chamada água morta em nossas vidas, as energias vivas da água, os movimentos vorticosos que são o fundamento de tudo na natureza e o motor a implosão baseado nos próprios métodos da natureza? Estes e tantos outros foram, podemos dizer, geniais naturalistas de verdade, pois independentemente de pintarem ou não, estavam sintonizados com algo grandioso e real, mas que ainda nos resta recuperar, estudar e desvendar hoje. Quando vamos começar a prestar mais atenção ao que se passa ao nosso redor? Isto e muito mais pode ser visto no excelente estudo mundial publicado por Peter Tompkins e Christopher Bird em sua essencial obra: Secrets Of The Soil de 1998 (Segredos do Solo – no original estão em destaque as primeiras letras S.O.S. não por acaso) que é a seqüência de The Secret Life of Plants de 1974 (A Vida Secreta das Plantas – que existe em Português) e uma espetacular ampliação sobre o que Rachel Carson escreveu no seu famoso livro Silent Spring de 1962, que abalou o mundo. Ambos os livros de Tompkins e Bird mostram as descobertas e os resultados reais e científicos de dezenas de pessoas especiais por todo o mundo até os dias de hoje, exemplos que exigem um urgente despertamento individual e depois coletivo, sem o que, poucas escolhas poderão ser acertadas e evitar o choque de retorno.
Se considerarmos esses triunfos da ciência ‘alternativa’ como válidos e da maior importância, vemos que há uma necessidade de irmos além em nossos estudos, admitindo uma Evolução mais abrangente e menos ditada pelo acaso e pela mera sobrevivência das espécies. Se formos nessa direção seremos forçados a admitir que realmente ainda não entendemos este mundo, mal arranhamos a superfície dos segredos que nos aguardam, talvez para quando formos mais merecedores por não estarmos mais agredindo nossa Mãe Natureza para exigir aquilo que pensamos ser nosso direito, violentando a terra com processos que podem ser desnecessários e muito prejudiciais como o uso dos agrotóxicos e fertilizantes para coagir a terra a produzir quando ainda não entendemos direito o que é vida, de onde vem e como cuidar dela. É uma coisa temerária intervir em algo que se admite que não se compreende totalmente, mesmo sob pressão dos lucros, pois para tudo haverá conseqüências. Intervimos na matéria, pensando conhecer suas leis, pensamos mais em salvar espécies em extinção sem saber se há leis para isso numa natureza que já cuida de tudo –enquanto do outro lado criamos espécies para abate– como recurso para ‘proteger os animais silvestres’ e lucrar ao mesmo tempo ou algo parecido, pensamos na poluição material química de rios, mares e lençóis freáticos, enquanto a poluição energética é pouco conhecida. Há mais para estudarmos para termos mais certeza de estarmos acertando quando decidimos intervir nos processos da vida.
É nessa vertente que me inspiro e procuro desenvolver meu trabalho de Ilustração e Design Naturalista, entre outras coisas, a partir do meu estúdio que fica no estado de São Paulo e que existe há 31 anos. Penso que a Ilustração naturalista pode e deve ser algo que ajude as pessoas a visualizar e sentir o belo incomum e o invisível, mostrando a magia real do fenômeno vida sem que isto signifique misticismo. No sentido que dou a esta forma de arte, é algo distante de ser arte ecológica, ambientalista, de botânica etc., pois nestes setores já há pessoas fazendo um belíssimo e necessário trabalho. Sem ser cientista, procuro fazer o que posso do meu lado, começando por dar este nome, Ilustração & Design Naturalista ao que faço, para apartá-lo do modismo da arte ecológica ou ‘New Age’, oferecendo uma outra forma de ver o mundo natural que nos cerca, como incentivo às nossas mais altas aspirações como seres humanos. Neste trabalho, emprego tanto técnicas tradicionais de pintura como técnicas digitais, incluindo a fotografia digital para alcançar o objetivo da imagem final que desejo criar. Adoro descobrir, perceber a ligação de coisas aparentemente relegadas a um segundo plano para formar uma só imagem. Por exemplo, a arte da capa desta edição nasceu da combinação de diversas coisas. O peixe surgiu há algum tempo quando eu pensava em poder captar no papel suas lindas cores e padronagem. Na minha frente estava um copo com restos de tinta em suspensão, onde eu lavava meus pincéis. Estes sedimentos de tinta (verde) formavam uma textura sensacional eu pensei, que combinaria muito bem com que estava criando, assim passei a juntar os dois. Na ocasião precisei parar sem terminar e a ilustração ficou guardada por muito tempo. Depois com o surgimento dos computadores foi possível resgatar e terminar esta imagem da forma como queria. Em nossas andanças ou mesmo em nosso quintal acabamos sempre encontrando coisas fascinantes, como um naturalista em campo (!) e numa dessas ocasiões encontrei e fotografei um espetacular e diferente tronco recoberto de musgo (tenho um banco de imagens montado com nossas fotos de diversas coisas naturais que me interessam como nuvens, cogumelos, folhas etc.) e num certo dia a conjugação destas três coisas me veio à mente e comecei a fazer a pintura digital desta composição como algo natural do fundo do mar. As linhas energéticas que aparecem na imagem nos lembram das forças que presidem e controlam os fenômenos da vida ‘nos bastidores’ do espectro visível. Desse tipo de inspiração e foco nasceu o que chamo de Nova Conscientização Naturalista e Arte Orientada por Evolução onde se propõe justamente um foco maior por parte dos novos naturalistas nas causas (forças primordiais e elementais) e suas interações e não somente nos efeitos (matéria) na nossa apreciação do mundo natural e numa maior responsabilidade também do artista com suas produções para que estas sejam cada vez mais norteadas pelo que realmente é útil e legítimo de ser produzido, mesmo que fora do ambiente naturalista, especialmente quando voltado para o público infantil que será influenciado pelo que lhe for mostrado, estando em nossas mãos guiar essa absorção para coisas afinadas com as Leis da natureza e da vida ou não, com as correspondentes conseqüências. Mesmo sem se ‘aprovar’ uma educação baseada em conhecimentos do imponderável, há que se reconhecer a necessidade de revermos diversos conceitos e que a arte naturalista pode ajudar.
Valorizar o que é nosso é importante também na forma das artes, pois temos aqui no Brasil um enorme território para explorar com este novo olhar e muita gente pode dar sua contribuição, sua visão, sua experiência pessoal. A intenção é ir além do meramente comercial, fazendo uma ponte visual quase viva entre o homem e seu meio ambiente. Ou seja, com trabalhos que trilhem caminhos que todos poderíamos trilhar juntos na nossa busca por um mundo mais equilibrado, mais justo e sincero porque a verdadeira justiça é praticada primeiro para com o planeta que nos cede espaço para desenvolvermos nossa experiência de vida e só assim para com o resto dos seres viventes e a humanidade sem fronteiras. Utopia? Não, apenas bom senso, na prática. Isso sim, é Evolução.
................................................................................................................................................................................................
R. Rajabally é brasileiro de descendência Indo-Britância, Ilustrador, Designer Gráfico e Tradutor Nativo do Inglês com um site do seu estúdio, iD Studio, dedicado a este universo de texto e arte: www.intangible-designs.com. Correspondência: r.rajabally@intangible-designs.com.

................................................................................................................................................................................................
Outros textos sobre esta visão podem ser consultados nestes links para quem deseja se aprofundar e conhecer mais:
Conhecimento Essencial | Visão | Conceitos Fundamentais | Vision & Bio (este último, somente em Inglês no momento) - Algumas destas seções estão em fase experimental e em desenvolvimento.
Fotos, na ordem: V. Schauberger, J.C.Bose, G.W.Carver e C. Bird.
*Partes deste texto podem estar um pouco diferentes da matéria final publicada.