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Editorial
Natureza e Arte Como
é sabido pelos nossos leitores, temos pautado, sempre
que possível, acontecimentos que revelam o lado bom
da relação homem-natureza. Não é
uma tarefa fácil porque comumente deparamo-nos com
apenas com manobras daqueles que fazem o bem apenas da boca
para fora, ou na sua denominação mais apropriada,
o marketing verde.
No entanto, temos encontrado bons exemplos. Seja na ciência,
na indústria, no governo ou na imprensa, lá
estão os bons exemplos de que a natureza encontra paz
nas mãos do homem.
Desde o lançamento de Com Ciência Ambiental,
em julho de 2006, temos privilegiado ações de
alguns segmentos da sociedade, como da comunidade científica
nacional, das ONGs nacionais e estrangeiras e das comunidades
tradicionais. Em branco ficou, porém, o trabalho dos
artistas.
Ouvimos dos mais vividos que nunca é tarde. E foi assim
então que decidimos que não poderíamos
mais adiar uma pauta sobre aquele que é um dos maiores
representantes do encontro da arte com a natureza, o ilustrador
naturalista.
Resolvemos que o trabalho do ilustrador naturalista seria
a capa desta edição, então entrevistamos
professores que ministram aula em cursos dirigidos à
formação de ilustradores, especialistas na arte
dos naturalistas Alexander Von Humboldt, Jean Baptiste Debret
e Johann Moritz Rugendas e convidamos o naturalista indo-britânico
Robert Rajabally para produzir um artigo sobre o assunto.
Até aí trata-se de um procedimento normal para
a produção de uma edição, mas
tudo mudou quando recebemos o artigo de 21 mil caracteres
escrito por Rajabally. Com ele, vimos que sabíamos
ainda pouco, ou melhor, sabíamos mais sobre Rugendas,
Humboldt e menos sobre o dia-a-dia dos homens que emprestam
sensibilidade ao registro da natureza.
Assim, tomamos uma decisão pouco comum, o artigo de
Rajabally tornou-se nossa matéria de capa sem, claro,
a pretensão de tornar-se um conteúdo jornalístico
sustentado no relato e interpretação de um fato.
Trata-se de um registro que jamais nós jornalistas
alcançaríamos. Ele vem de dentro do artista,
de um homem que há mais de 30 anos conhece a arte da
natureza, seus encantos, suas cores e suas fragilidades.
Deixamos que esta edição fosse o espaço
para Rajabally convidar os leitores para a abertura de um
espaço que Com Ciência Ambiental pretende dedicar
ao trabalho dos ilustradores naturalistas. Para isso, a continuação
da cobertura sobre a formação do ilustrador,
o debate entre artista, cientista e o mercado de trabalho
será retomada na edição de junho.
Se deixarmos a arte em segundo plano, recuperamos antes que
antes que fosse tarde o espaço que ela merece em nossa
revista. As boas-vindas a essa temática não
poderia ser melhor.
Convidamos nosso leitor para conhecer a arte e a inquietação
do ilustrador Robert Rajabally.
Boa leitura!
Cilene Victor
Diretora de Redação – Revista Com Ciência
Ambiental / Julho 2007
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Matéria:
Arte, ciência e natureza – Reflexões de
um Naturalista
(Título original: A Ilustração Naturalista*)
Por Robert Rajabally
Evolução. Eis uma palavra muitas
vezes esquecida e mais vezes ainda mal interpretada, ou relegada
a um segundo plano em tudo o que fazemos.
É uma palavra que carrega um significado que deveria
estar presente em todas as profissões que modelam o
presente e semeiam o futuro, especialmente em todas as ciências
e em todas as artes, pois estas afetam diretamente nossas
vidas e nossa maneira de pensar. Ela pertence ao início
desta matéria porque entre tantas ocupações
do ser humano, o de naturalista, que tentarei descrever um
pouco aqui, é uma das que mais deveria estar atenta
à evolução no seu verdadeiro sentido,
tomando a vida como um todo, despida de preocupações
apenas materiais de um lado ou de confusas crenças
místicas do outro, para buscar respostas mais profundas
sobre aquilo que chamamos vida e que nossos sentidos testemunham
a cada dia se nos dermos ao trabalho de reparar sem nossos
preconceitos científicos, religiosos ou culturais.
Uma visão de síntese enfim,
exigida pelos tempos de maior clareza mental em que vivemos,
um potencial de clareza que, paradoxalmente, também
sempre está sendo colocada em perigo pela exposição
às inversões de valores que experimentamos em
grande escala todos os dias; uma síntese que ainda
aguarda uma maior compreensão de nossa parte do mundo
em que vivemos já que estamos interagindo e intervindo
nele a cada instante também seja por atos, seja pela
omissão.
É fácil ver que sem essa compreensão
de profundidade e de síntese, dificilmente nossas decisões
sobre o que quer que seja poderiam ser sábias ou certas,
principalmente em seus efeitos a longo prazo, uma reflexão
que é muito atual em tempos de tantos debates sobre
conservação do nosso meio ambiente em face ao
poder de intervenção nos ecossistemas que temos
hoje. Tais decisões e omissões na verdade, podem
ser e freqüentemente são realmente desastrosas
como podemos ver diariamente nos meios de comunicação,
onde tantos equívocos criminosos são cometidos
pela ignorância das Leis Naturais e na arrogância
de acharmos que tudo nos é permitido fazer para domar
a Natureza e arrancar dela seus segredos à força
- muitas vezes apenas por lucro ou vaidade - ao invés
de caminharmos com ela em humilde aprendizado.
Aqui estamos, numa revista preocupada com questões
ambientais, olhando por um instante para a arte do naturalista,
seja ele profissional ou amador e o que isso pode ter de útil
num cenário como o descrito acima. É algo pouco
conhecido em nosso país e espero poder mostrar como
sendo algo fascinante e significativo. Vamos ver um pouco
como esta fascinante história natural, literalmente,
se desenhou: tradicionalmente, o papel do naturalista do passado
recente era de procurar descrever esse mundo, o fenômeno
Vida e seus mecanismos intrincados a nós outros, preparados
que eram em diversos campos, inclusive artísticos para
completar suas observações com as mais ricas
e precisas ilustrações mesmo antes da invenção
da fotografia. Esse naturalista é o naturalista do
passado, um amante da natureza que deveria reunir diversas
habilidades, pois também servia como desbravador de
novas terras, como repórter de um novo mundo e um detalhista
que saberia categorizar com precisão seus achados.
Não raro, seu trabalho seria completado por outro tipo
de naturalista, o do laboratório e das academias de
ciência que tinham à mão vastos compêndios
e instalações apropriadas para dissecar, medir,
pesar e finalmente classificar as espécies animais
e vegetais encontradas não sem o inestimável
auxílio das observações in loco e das
ilustrações de seus colegas.
Esses eram tempos em que a humanidade emergia finalmente do
obscurantismo e entrava na chamada era da razão e onde
começou a imperar o sistema usado até hoje de
análise – uma forma na verdade oposta à
de síntese que mencionamos antes – mas que tinha
e tem grande importância no nosso esforço de
compreender o mundo em que vivemos. Havia então uma
grande necessidade de classificar esse vasto manancial natural
em classes, ordens e famílias para podermos de alguma
forma controlar o volume de informações e torná-la
assimilável por outros que as estudariam mais tarde.
Assim, com alguma liberdade, pode-se dizer que os naturalistas
do século 19 eram divididos em naturalistas-aventureiros
(de campo) e os naturalistas-sedentários (de laboratório)
que nem sempre se entendiam por defenderem princípios
opostos. O que importa, porém para nós neste
artigo sobre Ilustração Naturalista além
dos seus métodos, são os resultados, principalmente
nas maravilhosas artes criadas por estas pessoas que amavam
o mundo natural a ponto de colocarem suas vidas em perigo
em aventuras perigosas.
Quando referenciamos esse passado relativamente recente, imediatamente
vêm à mente os nomes dos mais famosos naturalistas
que o mundo conheceu como o alemão Alexander Von Humboldt
(1769-1859) que esteve na Amazônia em 1800 em suas expedições
pela América do Sul de 1799 a 1804 ou ainda do grande
naturalista Franco-Americano John James Audubon (1785-1851)
que, entre tantas contribuições, descreveu,
catalogou e pintou os pássaros da América do
Norte e claro, o eterno naturalista inglês Charles Darwin
(1809-1882) que nos trouxe a primeira noção
de Evolução com a publicação da
Origem das Espécies em 1859. Impossível não
esquecer contribuições importantes ao tentar
referenciar todos os nomes conhecidos numa matéria
de revista e ainda fazer justiça aos inúmeros
anônimos ou dos que não seriam classificados
estritamente como naturalistas na acepção acadêmica
da palavra, mas que o eram de corpo e alma na profundidade
e no brilhantismo de suas contribuições como
iremos reconhecer um dia quando nossa visão do mundo
for menos materialista e procurarmos entender de coração
e mente limpos e desimpedidos, o que jaz por detrás
dela indo muito além do que sabemos hoje. Estes últimos
serão tratados mais adiante por constituírem
uma classe à parte por irem além dos ditames
convencionais da área o que, de certa forma, é
o foco desta matéria.
Por aqui, na Terra Brasilis também passaram
outros grandes nomes como o parisiense Jean Baptiste Debret
(1768-1848) um artista muito abrangente que chegou a desenhar
a primeira bandeira do Brasil e o pintor alemão Johann-Moritz
Rugendas (1802-1858) que ficou conhecido como o pintor das
cenas brasileiras pelo seu trabalho iniciado em 1821 quando
aqui esteve em expedição como desenhista. Tudo
isto já estará sendo dito nas outras matérias
a respeito nesta edição da Com Ciência
Ambiental, melhor do que eu poderia fazer. Assim sendo vou
tratar do meu assunto principal: O profissional naturalista
de ontem e a Ilustração Naturalista de amanhã.
O
que define ser um naturalista? Seria aquele que retrata somente
o mundo natural e aqui se entenda os animais, os minerais
e as plantas ou podemos abranger os pintores que retrataram
a vida dos povos e as etnias nas suas interações
com os ‘descobridores de um novo mundo’? Inevitavelmente,
ao se retratar os povos e costumes de uma época, acaba-se
registrando na forma de desenhos e pinturas grande parte da
geografia, da topografia e da flora e da fauna locais, porém
isso não é necessariamente um trabalho de naturalista
que se preocupa mais com a coleta de espécimes e dali
sim produzir desenhos precisos, esquemáticos ou artísticos
de suas observações além de também
muitas vezes fazer desenhos da topografia de lugares ainda
não mapeados como referências cartográficas.
Tudo isso é realmente um mundo fascinante de incontáveis
obras de arte de valor inestimável tanto pelo seu registro
histórico como pela qualidade das pinturas, que são
uma categoria de arte distinta, nem sempre reconhecida: do
Desenho Naturalista, da Ilustração e da Pintura
Naturalista. Para tratar delas de forma mais completa seriam
necessárias várias revistas inteiras e talvez
nem assim conseguiríamos abordar o tema sem esquecer
algo importante, porém a ênfase aqui é
de trazer à luz essa forma de arte pouco conhecida
e pouco valorizada principalmente no Brasil. Fica a sugestão
para os educadores que estejam lendo estas linhas que procurem
educar nossas crianças e jovens para que conheçam
esta vertente artística não só pelo seu
valor histórico, mas pelo dinamismo e papel que pode
ter nos dias de hoje. Quem sabe não apareceriam mais
artistas empenhados em ver e ir além das artes e conhecimentos
convencionais, criando algo único e de real inspiração
para as gerações atuais e futuras? Futuro? Isto
me faz pensar em rumos. Então vamos ver um pouco disso.
Rumos
Como disse no início, desejo ir um pouco além
do convencional neste esboço sobre o tema, pois uma
referência completa dos nomes citados poderia ser mais
apropriadamente encontrada em ótimos livros que existem
mundo afora e nas inúmeras matérias dedicadas
ao tema, sendo inútil repisar apenas o que já
é bem conhecido, valendo mais a proposição
de novas idéias e as possibilidades inerentes à
profissão hoje, revelando um potencial que pode e deve
ser levado adiante para não ser tão desconhecido
especialmente em nosso país que hoje discute a importância
da cidadania plena e carece de mais obras originais sobre
essa fascinante área da arte.
Então, da imagem do naturalista tradicional que pintei
acima, começamos a nos aproximar dos dias atuais onde
podemos encontrar alguns belíssimos livros ilustrados
que mostram o mundo do naturalista profissional ou amador.
Como exemplo, posso citar o livro O Naturalista Amador do
naturalista e conservacionista indo-britânico Gerald
Durrell (1925-1995), um livro editado no Brasil e em Português
pela Martins Fontes ainda em 1984, numa ótima iniciativa.
O valor desse livro está em justamente apresentar o
universo do naturalista amador e profissional ao público
de todas as idades de forma carismática como merece
o tema, dividido em regiões e fartamente ilustrado
com lindos desenhos e ilustrações além
da primorosa fotografia que é parte indispensável
do naturalismo moderno que busca registrar de todas as formas
o objeto do seu amor e interesse. São livros como esse
que nunca deveriam faltar nas salas de aula de nossas crianças.
Pare e pense nisso um instante, pois não sei como enfatizar
mais esta questão: poderíamos ter livros nacionais,
ricamente concebidos para nossas crianças, livros distantes
das canastrices ginasiais de livrinhos e folhetos ambientais
comuns que pouco fazem para estimular o interesse legítimo
do ser pensante e respeitar a inteligência do leitor,
gerando somente mais desinteresse e apatia pela vida ou promovendo
a repetição das mesmas coisas de sempre. É
preciso um esforço coletivo para retomar a educação,
despertar e orientar o interesse natural de crianças
e jovens pelo universo que nos cerca de forma dinâmica
e aprofundada, transcendendo modismos ecológicos e
o conhecimento superficial bem antes de escolherem suas profissões,
para que mais pessoas cheguem à vida adulta ainda despertas
e vivas no que diz respeito à sua ligação
fundamental com a vida e em condições de demonstrar
essa visão de várias maneiras. Ainda é
tempo e pode ser feito aqui e ali. Mas voltemos ao nosso assunto
principal.
Comparando esse passado com o panorama atual, pode-se ver
que a formação cultural-acadêmica do naturalista
de antigamente era mais abrangente, uma formação
onde o cientista-naturalista tinha uma cultura mais vasta,
multidisciplinar, interessado que era nas ciências naturais
sem distinção de áreas, pois se interessava
por todas as partes que compõe a busca do entendimento
como um Todo. Esse é o tipo de formação
que falta hoje: uma formação multidisciplinar
que não se prenda aos preconceitos científicos
modernos e ouse ir além, onde estão as verdadeiras
respostas, além da noção estacionária
da Evolução das Espécies de Darwin. Parece
uma contradição e é: evolução
em si não pode ser estacionária, mas a noção
dela acaba sendo se a compreendemos e a aplicamos de forma
estática, sem ver que há mais o que ver além
da noção de que as espécies lutam pela
sobrevivência do mais forte para propagar sua semente
como o método impessoal e frio ‘escolhido’
pela natureza: a chamada seleção natural. É
preciso estar disposto para ir muito além desbravando
o resto e vendo onde nos encaixamos nisto. Ou seja, trata-se
de ir além do debate estéril do Creacionismo
vs. Darwinismo, se me permitem por desta forma, trata-se de
educar corações e mentes para unir a pesquisa
científica ética e séria com as noções
de evolução e despertamento da consciência
para uma investigação proveitosa e fascinante.
A Ilustração Naturalista pode e deve, na minha
opinião, ajudar nesse processo, materializando imagens
que inspirem esta busca, que dêem forma ao imponderável
e empolguem o coração com imagens que procurem
mostrar mais do que um livro de botânica ou uma mostra
comum de belas fotos de natureza poderiam mostrar.
Em contrapartida, o naturalista moderno possui uma formação
mais especializada, quase sempre significando uma formação
como biólogos ou ambientalistas de diversos tipos para
ter a fundamentação científica necessária
tanto para a análise como para o diagnóstico
de providências a serem tomadas para cada estudo ou
solução de problemas. Porém essa inegável
vantagem do arsenal moderno de sua formação
pode ser seu maior problema por muitas vezes ficar restrita
ao seu campo de observação e ao que é
aceito como ‘útil’ de ser pesquisado, salvo
seus próprios estudos pessoais que complementem sua
formação como pessoa, mas que infelizmente ainda
não são reconhecidos do ponto de vista profissional,
pois a sociedade e a comunidade científica atuais tendem
a ver mais as credenciais que o profissional possuir de sua
formação acadêmica normal, ou seja, se
ele se encaixa no modelo atual, do que dependerá seu
sucesso na carreira e a obtenção de verbas para
suas pesquisas. De modo geral, há pouco interesse em
se ir além, mas isto já foi feito pelo mundo
afora e noutros tempos com enorme sucesso e deveria servir
de exemplo a nós outros. Isto não é uma
crítica generalizada, pois se deixa espaço para
todos os acertos de profissionais corajosos aqui e ali, no
Brasil e no mundo que estão vivenciando algo mais real
e ético; é antes de tudo, uma observação
como cidadão, dos fatos que vemos ao nosso redor que
chamam a nossa atenção, porque há um
problema em grande escala.
A excessiva especialização, fruto da chamada
era da razão e da análise apesar de sua também
inegável importância, possui uma outra grande
limitação inerente: torna cada vez mais raro
o surgimento de pessoas capazes de ver o Todo, além
das partes de sua especialização e disso extrair
conclusões, mais abrangentes e úteis, porque
mais próximas da realidade e dos verdadeiros mecanismos
da natureza que não está dividida em compartimentos
estanques, como tantos gostariam, mas que ao contrário,
exige cada vez mais que saibamos ver a ressonância
entre as partes e como tudo é um só organismo
interdependente e que influi uns sobre os outros de forma
dinâmica e que tais segredos não estão
somente ‘lá fora’ ou debaixo das lentes
de um poderoso microscópio eletrônico, mas também
dentro de cada um de nós. Inúmeros estudos já
mostram essa interdependência, tanto que já é
até ‘politicamente correto’ afirmar que
o que fazemos ou o que deixamos de fazer com a natureza nos
afetará o futuro de nossos filhos, assim, não
erraríamos por muito se afirmássemos que isso
não é misticismo ou especulação
sem base e sim a ciência do futuro que deveríamos
estar construindo hoje de forma mais ativa. Isto é
Evolução. Precisamos de pessoas que possam opinar
multidisciplinarmente com autoridade intelectual e moral sobre
as questões éticas prementes e não apenas
sobre sua área, gerando polêmicas infindas. Sem
uma formação mais global fica difícil
o diálogo e a troca de opiniões que dependem
mais de sabedoria universal sobre as Leis da Vida do que da
especialização que não leva em conta
esta ressonância e está presa a regras
dogmáticas.
Mesmo com as diferenças que vimos acima entre o naturalista
de antes e o de hoje ainda assim há um fio condutor
que une as formas mais tradicionais e as mais modernas da
profissão de naturalista e este é justamente
seu foco que ainda está estacionado na análise
dos espécimes, quantificando e qualificando suas partes
supondo extrair desse método os resultados tanto para
a chamada conservação dos ecossistemas como
para o desenvolvimento de produtos lucrativos para a indústria.
Da noção original de evolução
Darwiniana para os tempos de hoje é evidente ter prevalecido
uma noção de evolução puramente
material das espécies, apenas por motivos de propagação
da própria espécie e de sobrevivência,
daí também o foco dos artistas ter recaído,
na maior parte, em retratar de forma a valorizar a anatomia
e a forma biológica física como única
coisa a ser vista no mundo natural. Esse modelo, sem dúvida
importante e necessário na época em que foi
apresentado a um mundo que carecia saber estas coisas, pode
ser insuficiente hoje e certamente será para o futuro,
pois o homem moderno não pode mais basear sua trajetória
de vida apenas com uma noção de acaso e necessidade
de sobrevivência para explicar o fenômeno vida
e nortear seu comportamento. A própria vida parece
nos chamar a atenção para mais. Mas, estamos
ouvindo?
Outras pessoas ouviram. Há outras tendências
que também foram desenvolvidas paralelamente desde
o século 19, mas que estranhamente não tiveram
a chance de serem apreciadas por muitos - que deveriam ter
maior poder de escolha do que lhes convém estudar estando
num país livre - principalmente no Brasil, pela oficialização
do que deve ser estudado ou não e pela falta de obras
devidamente traduzidas e publicadas para o público
brasileiro além da crescente necessidade de definição
de nossas profissões dentro do que já existe
e é aceito, agora sim, para garantir nossa sobrevivência.
São Cientistas, Naturalistas, Bioquímicos, Horticulturistas,
Físicos e Biólogos de formação
abrangente e de todas as latitudes do planeta que produziram
obras da maior magnitude para depois serem ignoradas como
anticientíficas, um verdadeiro absurdo
por sinal, principalmente porque muitas foram feitas com rigor
científico e resultaram em muitos tomos de milhares
de páginas com experimentos que podiam ser reproduzidos
por outros pesquisadores com resultados idênticos (um
dos preceitos de aceitação do chamado ‘método
científico’). É o trabalho, por exemplo,
do cientista Indiano Jagadis Chandra Bose
que antes de 1900 já havia amplamente demonstrado diante
da Real Academia de Ciências da Inglaterra as reações
dos elementos considerados não-viventes com seu Crescógrafo
– demonstrando que não há a suposta fronteira
entre o vivente e o não-vivente, que tudo possui vida
– e subseqüentes equipamentos tão precisos
e sensíveis que até hoje não temos nada
igual, além de mais descobertas espetaculares, todas
demonstradas com o rigor científico necessário.
Um museu em sua homenagem pode ser visitado na Índia.
Ou ainda o trabalho visionário e pioneiro do ex-escravo
norte-americano tornado
bioquímico George Washington Carver que
demonstrou também nos idos de 1800 sua comunicação
com as plantas e criou disso centenas de produtos que hoje
ainda são fundamentais na economia mundial como os
inúmeros derivados do amendoim. E que dizer do genial
inventor, observador naturalista e guarda florestal austríaco
Viktor Schauberger que revelou as espetaculares
propriedades da água, como ela se move, os efeitos
da chamada água morta em nossas vidas, as energias
vivas da água, os movimentos vorticosos que são
o fundamento de tudo na natureza e o motor a implosão
baseado nos próprios métodos da natureza? Estes
e tantos outros foram, podemos dizer, geniais naturalistas
de verdade, pois independentemente de pintarem ou não,
estavam sintonizados com algo grandioso e real, mas que ainda
nos resta recuperar, estudar e desvendar hoje. Quando vamos
começar a prestar mais atenção ao que
se passa ao nosso redor? Isto e muito mais pode ser visto
no excelente estudo mundial publicado por Peter Tompkins
e Christopher Bird em sua essencial obra:
Secrets Of The Soil de 1998 (Segredos do Solo –
no original estão em destaque as primeiras letras S.O.S.
não por acaso) que é a seqüência
de The Secret Life of Plants de 1974 (A Vida Secreta das Plantas
– que existe em Português) e uma espetacular ampliação
sobre o
que Rachel Carson escreveu no seu famoso
livro Silent Spring de 1962, que abalou o
mundo. Ambos os livros de Tompkins e Bird mostram as descobertas
e os resultados reais e científicos de dezenas de pessoas
especiais por todo o mundo até os dias de hoje, exemplos
que exigem um urgente despertamento individual e depois coletivo,
sem o que, poucas escolhas poderão ser acertadas e
evitar o choque de retorno.
Se considerarmos esses triunfos da ciência ‘alternativa’
como válidos e da maior importância, vemos que
há uma necessidade de irmos além em nossos estudos,
admitindo uma Evolução mais abrangente e menos
ditada pelo acaso e pela mera sobrevivência das espécies.
Se formos nessa direção seremos forçados
a admitir que realmente ainda não entendemos este mundo,
mal arranhamos a superfície dos segredos que nos aguardam,
talvez para quando formos mais merecedores por não
estarmos mais agredindo nossa Mãe Natureza para exigir
aquilo que pensamos ser nosso direito, violentando a terra
com processos que podem ser desnecessários e muito
prejudiciais como o uso dos agrotóxicos e fertilizantes
para coagir a terra a produzir quando ainda não entendemos
direito o que é vida, de onde vem e como cuidar dela.
É uma coisa temerária intervir em algo que se
admite que não se compreende totalmente, mesmo sob
pressão dos lucros, pois para tudo haverá conseqüências.
Intervimos na matéria, pensando conhecer suas leis,
pensamos mais em salvar espécies em extinção
sem saber se há leis para isso numa natureza que já
cuida de tudo –enquanto do outro lado criamos espécies
para abate– como recurso para ‘proteger os animais
silvestres’ e lucrar ao mesmo tempo ou algo parecido,
pensamos na poluição material química
de rios, mares e lençóis freáticos, enquanto
a poluição energética é pouco
conhecida. Há mais para estudarmos para termos mais
certeza de estarmos acertando quando decidimos intervir nos
processos da vida.
É nessa vertente que me inspiro e procuro desenvolver
meu trabalho de Ilustração e Design Naturalista,
entre outras coisas, a partir do meu estúdio que fica
no estado de São Paulo e que existe há 31 anos.
Penso que a Ilustração naturalista pode e deve
ser algo que ajude as pessoas a visualizar e sentir o belo
incomum e o invisível, mostrando a magia real do fenômeno
vida sem que isto signifique misticismo. No sentido que dou
a esta forma de arte, é algo distante de ser arte ecológica,
ambientalista, de botânica etc., pois nestes setores
já há pessoas fazendo um belíssimo e
necessário trabalho. Sem ser cientista, procuro fazer
o que posso do meu lado, começando por dar este nome,
Ilustração & Design Naturalista
ao que faço, para apartá-lo do modismo da arte
ecológica ou ‘New Age’, oferecendo uma
outra forma de ver o mundo natural que nos cerca, como incentivo
às nossas mais altas aspirações como
seres humanos. Neste trabalho, emprego tanto técnicas
tradicionais de pintura como técnicas digitais, incluindo
a fotografia digital para alcançar o objetivo da imagem
final que desejo criar. Adoro descobrir, perceber a ligação
de coisas aparentemente relegadas a um segundo plano para
formar uma só imagem. Por exemplo, a arte da capa desta
edição nasceu da combinação de
diversas coisas. O peixe surgiu há algum tempo quando
eu pensava em poder captar no papel suas lindas cores e padronagem.
Na minha frente estava um copo com restos de tinta em suspensão,
onde eu lavava meus pincéis. Estes sedimentos de tinta
(verde) formavam uma textura sensacional eu pensei, que combinaria
muito bem com que estava criando, assim passei a juntar os
dois. Na ocasião precisei parar sem terminar e a ilustração
ficou guardada por muito tempo. Depois com o surgimento dos
computadores foi possível resgatar e terminar esta
imagem da forma como queria. Em nossas andanças ou
mesmo em nosso quintal acabamos sempre encontrando coisas
fascinantes, como um naturalista em campo (!) e numa dessas
ocasiões encontrei e fotografei um espetacular e diferente
tronco recoberto de musgo (tenho um banco de imagens montado
com nossas fotos de diversas coisas naturais que me interessam
como nuvens, cogumelos, folhas etc.) e num certo dia a conjugação
destas três coisas me veio à mente e comecei
a fazer a pintura digital desta composição como
algo natural do fundo do mar. As linhas energéticas
que aparecem na imagem nos lembram das forças que presidem
e controlam os fenômenos da vida ‘nos bastidores’
do espectro visível. Desse tipo de inspiração
e foco nasceu o que chamo de Nova Conscientização
Naturalista e Arte Orientada por Evolução
onde se propõe justamente um foco maior por parte dos
novos naturalistas nas causas (forças primordiais e
elementais) e suas interações e não somente
nos efeitos (matéria) na nossa apreciação
do mundo natural e numa maior responsabilidade também
do artista com suas produções para que estas
sejam cada vez mais norteadas pelo que realmente é
útil e legítimo de ser produzido, mesmo que
fora do ambiente naturalista, especialmente quando voltado
para o público infantil que será influenciado
pelo que lhe for mostrado, estando em nossas mãos guiar
essa absorção para coisas afinadas com as Leis
da natureza e da vida ou não, com as correspondentes
conseqüências. Mesmo sem se ‘aprovar’
uma educação baseada em conhecimentos do imponderável,
há que se reconhecer a necessidade de revermos diversos
conceitos e que a arte naturalista pode ajudar.
Valorizar o que é nosso é importante também
na forma das artes, pois temos aqui no Brasil um enorme território
para explorar com este novo olhar e muita gente pode dar sua
contribuição, sua visão, sua experiência
pessoal. A intenção é ir além
do meramente comercial, fazendo uma ponte visual quase viva
entre o homem e seu meio ambiente. Ou seja, com trabalhos
que trilhem caminhos que todos poderíamos trilhar juntos
na nossa busca por um mundo mais equilibrado, mais justo e
sincero porque a verdadeira justiça é praticada
primeiro para com o planeta que nos cede espaço para
desenvolvermos nossa experiência de vida e só
assim para com o resto dos seres viventes e a humanidade sem
fronteiras. Utopia? Não, apenas bom senso, na prática.
Isso sim, é Evolução.
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R. Rajabally é brasileiro de descendência Indo-Britância,
Ilustrador, Designer Gráfico e Tradutor Nativo do Inglês
com um site do seu estúdio, iD Studio, dedicado a este
universo de texto e arte: www.intangible-designs.com. Correspondência:
r.rajabally@intangible-designs.com.
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Outros textos sobre esta visão podem ser consultados
nestes links para quem deseja se aprofundar e conhecer mais:
Conhecimento Essencial
| Visão | Conceitos
Fundamentais | Vision & Bio
(este último, somente em Inglês no momento) -
Algumas destas seções estão em fase experimental
e em desenvolvimento.
Fotos, na ordem: V. Schauberger, J.C.Bose, G.W.Carver e C.
Bird.
*Partes deste texto podem estar um pouco diferentes da matéria
final publicada. |